Lançar empreendimentos já não basta na construção civil, apontam especialistas

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Governança corporativa na construção civil: como gestão de riscos, compliance e decisões estratégicas aumentam a longevidade das construtoras. Entenda os desafios do setor, escassez de mão de obra, reputação empresarial e como a tecnologia e sistemas de gestão como o SIECON ajudam empresas da construção civil a ganhar eficiência, controle e competitividade.
Governança corporativa na construção civil: como gestão de riscos, compliance e decisões estratégicas aumentam a longevidade das construtoras. Entenda os desafios do setor, escassez de mão de obra, reputação empresarial

Governança sólida, decisões estratégicas e gestão de riscos são principais pontos para longevidade das construtoras

Durante décadas, a força de uma construtora foi medida pelo volume de lançamentos, pela velocidade das vendas e pelo tamanho dos empreendimentos entregues. Mas, em um mercado pressionado por custos crescentes, escassez de mão de obra, maior rigor regulatório e exposição pública constante, a sobrevivência das empresas passou a depender de algo menos visível: a capacidade de tomar decisões consistentes ao longo do tempo.

Hoje, governança corporativa, gestão de riscos e reputação deixaram de ocupar apenas o discurso institucional e passaram a integrar diretamente a estratégia de permanência das empresas no mercado. O cenário ajuda a explicar essa mudança.

Dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram que cerca de 70% das empresas da construção civil enfrentam escassez de profissionais qualificados, enquanto 82% relatam dificuldade para contratar mão de obra especializada. Além dos impactos operacionais, o contexto pressiona custos, aumenta riscos e exige estruturas mais preparadas para lidar com crises, tomada de decisão e retenção de talentos.

Governança começa antes do organograma
Um dos equívocos mais comuns entre gestores, segundo o CEO e Engenheiro de Decisões da Groundzero, Marcos Brandão, é tratar a governança apenas como um conjunto de normas ou mecanismos burocráticos. “A governança é uma arquitetura de como as empresas tomam as suas decisões. Sejam decisões de estratégia, de cultura, do que for”, afirma.

Nas empresas familiares, maioria esmagadora dentro da construção civil brasileira, o desafio costuma começar na falta de clareza estratégica. Para Brandão, muitos empresários ainda enxergam a governança como algo distante da realidade operacional. “Quando você conversa com o empresário, ele fala: ‘Eu cheguei até aqui’. Mas 60% das empresas não completam cinco anos. Ele ainda tem uma postura de que chegou até aqui sem governança, sem essa burocracia toda”, observa. Este modelo, segundo o especialista, gera perdas silenciosas que comprometem o crescimento das empresas, desde desperdícios financeiros até dificuldade de retenção de talentos e perda de capacidade de inovação.

O diretor jurídico da Emccamp e VP de Políticas Trabalhistas do Sinduscon-MG, Felipe Boaventura, reforça que governança também depende da preservação dos espaços corretos de decisão dentro das organizações. “Não adianta você ter uma fazenda com câmeras e sensores na grade e deixar o muro caído a dez metros de distância. Quando a gente não respeita os foros adequados para as discussões estratégicas, táticas e operacionais, a gente acaba perdendo a capacidade de avaliar e decidir bem cada uma delas”, pontua.

Compliance como ativo, não como despesa
Outro ponto que vem ganhando força dentro das construtoras é a mudança de percepção sobre o compliance. Se antes o tema era associado apenas a controle ou obrigação regulatória, agora ele passa a ser tratado como ferramenta de fortalecimento institucional.

O VP de Relações Institucionais e Sustentabilidade da MRV, Raphael Lafetá, afirma que a principal transformação começa quando as empresas deixam de enxergar compliance como despesa. “Não é custo, é investimento. Investimento na sua marca, no seu produto, em todos os seus stakeholders que estão ali de olho em você”, afirma.

Lafetá também relaciona diretamente a governança à postura das lideranças. “Uma boa governança tem que ter um bom exemplo e parte da cabeça das empresas”, pontua. A consolidação de uma cultura de integridade depende do comportamento de quem ocupa posições estratégicas e da coerência entre discurso e prática, de acordo com o VP.

No mercado financeiro, os impactos da governança já são percebidos de forma concreta. Boaventura destaca que empresas com estruturas mais sólidas conseguem acessar melhores condições de captação de recursos e ampliar a confiança de investidores. “A partir do momento que você cumpre os requisitos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de categoria A, você tem acesso a todo um universo restrito de investidores, que te permitem um ganho competitivo tremendo na captação de recursos”, explica.

Riscos subestimados no setor
Além das ameaças jurídicas e operacionais tradicionais, os especialistas alertam para riscos que ainda são subestimados no setor, principalmente aqueles ligados à cultura organizacional e à capacidade de retenção de talentos. Boaventura chama atenção para empresas que ainda operam sem uma estratégia clara de geração de valor e sem capacidade de atrair profissionais qualificados em um cenário de escassez de mão de obra.

Eventos climáticos extremos também aparecem como uma das principais fronteiras de risco para a construção civil. A resiliência climática deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a impactar diretamente operação, planejamento e sustentabilidade financeira das empresas. Lafetá afirma que a gestão de riscos depende da preparação institucional para responder rapidamente quando os problemas acontecem. “Aconteceu um acidente na obra, é um risco que você sabia que poderia ter. Então você tem que ter no seu sistema de governança como tratar esse acidente. O que eu tenho que fazer? Para quem reportar? Como falar isso para a sociedade? E qual lição aprender para que jamais se repita?”, questiona.

Reputação se tornou ativo de longo prazo
Em um ambiente de alta exposição digital e circulação acelerada de informações, confiança e credibilidade passaram a influenciar diretamente valor de marca, capacidade de expansão e percepção do mercado. Na visão de Brandão, o maior erro é implementar estruturas de governança apenas para atender exigências formais ou construir uma imagem institucional. “Os funcionários percebem, os clientes percebem, os órgãos regulatórios percebem que não tem governança nenhuma, que está só no papel. Se você decidiu fazer um sistema de governança, faça e siga. Senão, o tiro sai pela culatra”, afirma.

Boaventura resume a relação entre governança e reputação como uma cadeia contínua de confiança. “Governança para mim é uma questão de reputação. Governança é uma questão de confiança”, conclui.

O tema foi debatido no podcast Morar em Pauta, da Emccamp Residencial, que reuniu o diretor jurídico da Emccamp e vice-presidente de Políticas Trabalhistas do Sinduscon-MG, Felipe Boaventura; o vice-presidente de Relações Institucionais e Sustentabilidade da MRV, Raphael Lafetá; e o CEO e engenheiro de decisões da Groundzero, Marcos Brandão.

O episódio já está disponível nas plataformas Spotify e Youtube.